Cogumelo Mágico Psilocybe Cubensis

Os cogumelos alucinógenos eram usados no México, Guatemala e Amazonas em rituais religiosos e por curandeiros. Os Maias utilizavam um fungo ao qual chamavam, na língua nahuátl, teonanácatl (a “carne dos deuses”) há 3500 anos.

Uma pequena História dos cogumelos.

Apesar de existir há séculos ou até milhares nas culturas indígenas, apenas no século XX plantas e fungos enteógenos (palavra de origem grega que significa algo como “manifestação interior do divino”) foram descobertos pela civilização ocidental moderna. O grande precursor no entendimento dos usos dos cogumelos com potencial de expansão da consciência foi o estadunidense Robert Gordon Wasson (1898 – 1986). A história diz que ele e sua esposa Valentina Pavlovna, de origem russa, tinham opiniões bastante divergentes sobre os fungos; enquanto para Valentina os cogumelos eram iguaria culinária ou mesmo remédio em potencial, Gordon ficava aterrorizado com o simples fato de alguém – ainda mais sua esposa! – comer o que, para ele, era veneno. Após constatar em sua própria casa que muitos cogumelos podiam ser consumidos sem riscos à saúde, Wasson sentiu-se até certo ponto ridículo por sua aversão infundada. Passou, assim, a indagar-se o porquê de um mesmo corpo de frutificação (denominação técnica de cogumelo) causar reações tão antagônicas em pessoas vindas de culturas diferentes. Wasson passou a estudar intensamente o tema, o que o levou a escrever um livro com a esposa (Mushrooms, Russia and history, 1957) sobre como tais diferenças culturais permaneciam em sociedades modernas.

Não satisfeito, no entanto, embrenhou-se cada vez mais em meio a relatos de culturas indígenas tradicionais que literalmente veneravam os cogumelos e passou a ir atrás delas, afim de conhecê-las. Ele as chamou de culturas ou sociedades micofílicas (do grego mykes = “fungo”; philos = “o que gosta de”) em oposição àquelas avessas aos fungos (como a sua sociedade norte-americana natal), as quais nomeou micofóbicas (do grego phobos = “medo, temor”).

Mais do que descrever essas sociedades, o que fez de Wasson alguém realmente reconhecido, no entanto, foram os relatos de suas experiências ao participar de rituais religiosos, nas tribos em que visitou, onde se consumiam cogumelos “mágicos”. Reconhecido por muitos como o primeiro ocidental moderno a participar e descrever tais rituais com interesse antropológico, o pesquisador publicou vários livros relatando as novas percepções que conhecera ao expandir sua consciência com os fungos.

Alguns anos antes, um químico suíço chamado Albert Hofmann trabalhava em seu laboratório em uma grande empresa farmacêutica com um fungo chamado Claviceps purpurea – bastante conhecido por causar uma doença chamada ergotismo, comum na Idade Média. Certo dia, após algumas tentativas frustradas de obter-se os metabólitos de capacidade anti-hemorrágica que buscava, Hofmann resolveu ir embora, quando, por descuido, acabou entrando em contato com uma das substâncias produzidas a partir do C. purpurea. Despreocupado, pegou sua bicicleta e pedalou para casa. O caminho, no entanto, foi muito mais do que um simples passeio. As diminutas gotas na pele de Hofmann continham uma substância de grande potencial psicodélico – a qual batizou posteriormente de dietilamina do ácido lisérgico – LSD. Tal substância, absorvida pela via cutânea, fez com que o suíço experimentasse um estado de consciência e percepções altamente modificado.

Quando, após algum tempo, deduziu o que tinha acontecido e a causa, começou a pensar em aplicações para aquela substância única, dentre as quais seu uso para ajudar pessoas que estivessem sofrendo com problemas psicológicos e alcoolismo. Houve um crescente interesse nas áreas da psiquiatria e psicologia pelo composto, sendo um dos maiores expoentes no assunto, à época, o psicólogo estadunidense Timothy Leary.

Na aurora dos estudos com psicodélicos, Hofmann entrou em contato – possivelmente através das obras de Wasson – com o tema dos cogumelos enteógenos. Passou a interessar-se também por eles e, usando suas habilidades de químico, conseguiu isolar a principal substância responsável pelos efeitos psicoativos: a psilocibina, também usada a partir daí em pesquisas da área médica por Leary e outros.

Apesar da intenção inicial de tornar a substância um recurso terapêutico, o LSD acabou sendo indiscriminadamente consumido, principalmente por jovens de classe média, nos anos da chamada contracultura (década de 1960). Sua disseminação foi vertiginosa e os efeitos – principalmente em virtude do consumo de dosagens muito altas – nem sempre eram positivos para os usuários. Tudo isso tornou a substância bastante polêmica, até que, por fim, fosse proscrita (proibição do uso, obtenção e comercialização) nos EUA e daí, também, banida no resto do mundo no começo da década de 1970.

Sobre o LSD, Hofmann escreveu seu mais famoso livro, LSD: my problem child (LSD: meu filho problema, em tradução livre). A substância mais importante e famosa descoberta por ele foi, ao mesmo tempo, a mais problemática, por causa dos usos indevidos e os consequentes problemas legais que gerou.

Os fungos psicodélicos no século XXI
Apesar de continuarem polêmicas, as substâncias psicodélicas parecem experimentar, nas primeiras décadas do século XXI, um novo reconhecimento por parte da ciência, sendo alvo de pesquisas de ponta em diversas áreas. “Sem dúvida alguma o interesse está crescendo”, diz Eduardo Schenberg, neurocientista e pesquisador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares em Psicoativos (Neip, composto por cientistas vinculados a várias instituições), ressaltando que têm figurado na capa de revistas científicas importantes, como Cell e The British Medical Journal. psilocybe cubensis desidratado

Schenberg, que é sócio-fundador da Sociedade Internacional para Pesquisa com Psicodélicos (ISRP, na sigla em inglês), explica que o interesse da biomedicina e demais áreas médicas nesse tema diminuiu após a proscrição das substâncias. No entanto, afirma, “o tema sempre foi instigante e importante”. “Enquanto a biomedicina ignorava os psicodélicos quase que por completo, nas ciências humanas vários estudos e descobertas importantes foram feitas nas décadas de 70, 80 e 90.” O  interesse da área biomédica só voltaria a ressurgir a partir de 1995, com as pesquisas realizadas pelo professor Rick Strassman, da Universidade do Novo México, nos EUA, com o DMT (dimetil-triptamina: substância psicoativa encontrada, por exemplo, na ayahuasca – bebida de uso ritual à base de plantas).

Atualmente, muitos artigos têm sido publicados sobre o uso de substâncias enteogênicas, dentre as quais as derivadas de fungos, em pesquisas das áreas de psiquiatria, psicologia, biomedicina, farmacologia, neurociências e outras – a lista é cada vez maior.

“Com o LSD, por exemplo, nos últimos 12 meses foram publicados estudos muito importantes sobre os efeitos no cérebro humano”, diz Schenberg, que participou de um desses estudos, “e também em escala nanométrica, sobre como essa molécula se liga no receptor [de nome técnico] 5-HT2A”. “Estamos começando a juntar os pedaços do conhecimento que vai do nanométrico mundo das moléculas e receptores até o mais sistêmico, sobre o cérebro e a psique”, complementa.

Segundo o cientista, há avanços na área em grande parte devido a tecnologias que sequer existiam na época das primeiras pesquisas com enteógenos, como a neuro-imagem e a cristalografia. “Foi demonstrado que o LSD apresenta um padrão único de ligação no interior do receptor, que forma uma espécie de ‘tampa’ que o prende lá dentro; assim fica ligado ao receptor por muitas horas – algo extremamente incomum nas interações entre fármacos e receptores no sistema nervoso central”, afirma. “Na escala sistêmica”, prossegue o pesquisador, “observamos que o LSD, assim como a psilocibina, temporariamente dessincroniza o córtex cerebral e, ao fazer isso, permite que áreas do cérebro que normalmente operam separadamente – como se fossem estações de rádio transmitindo em diferentes frequências – passem a se comunicar. Isso permite maior fluidez cognitiva, emocional e comportamental, e está relacionado com vários dos benefícios terapêuticos”.

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